DONA OSMARINA

Eu, aos 9 anos, com minha avó
Dona Osmarina - minha avó materna - foi, nos anos 80 e 90, uma das maiores doceiras da cidade de Bagé, Rio Grande do Sul. Doceira é maneira de dizer. Dona Osmarina conquistou uma grande clientela - que se deslocava de todas as partes da cidade até a casinha de madeira da Mãe Luciana - fazendo muito mais do que seus doces tradicionais. Era conhecida principalmente pelos deliciosos salgadinhos (frios, como chamam na fronteira) de receitas únicas e tradicionais; pelas tortas salgadas e pelos bolos de um, dois ou três andares. Tudo feito assim, a olho. Sem tecnologia, sem pretensões, sem frescuras. Lembro das manhãs congelantes do inverno bageense em que minha mãe (filha única de Dona Osmarina) me tirava da cama para irmos para a casa da vó para que ela pudesse ajudá-la na lida das encomendas. Que fervilhavam em determinadas épocas, como nos finais de ano. A vó nunca teve empregados fixos: contava com a ajuda remunerada de vizinhas que, por sinal, aprenderam com ela os segredos de suas receitas. Muitas passaram a fazer seus próprios quitutes, para vender. Nunca iguais aos de Dona Osmarina, óbvio. Lembro de amar aquela casa, com cheiro de coisa assando no forno. Aquela cozinha grande, amarela. Tudo ali tinha alma, tinha a assinatura da minha vó. Um dos meus sonhos de criança era transformar aquilo tudo em um negócio de verdade. Queria que ela tivesse uma confeitaria no Centro, onde as pessoas pudessem ir tomar café da tarde. Das vezes que falei sobre isso, tive de Dona Osmarina apenas um sorriso e um brilho especial naqueles olhos verdes. Talvez ela já estivesse cansada. De minha mãe, ouvi duas ou três vezes, até desistir do plano: "por quê?! Pra pagar impostos? Aluguel? Funcionários? Tá bom assim, não inventa." É. Ela definitivamente não gostava de cozinhar. Dona Osmarina faleceu sozinha, em frente ao fogão amarelo, no dia 20 de agosto de 2007, aos setenta e poucos anos, vítima de um infarto fulminante. E assim terminaria a história.

Mas dez anos depois da partida de minha única avó, um belo dia, do nada, decidi iniciar um projeto simples e ao mesmo tempo audacioso: preparar lanches saudáveis e entregá-los diariamente a meus colegas de trabalho, a preços acessíveis. E assim surgiu, em 2016/2017 o Dona Osmarina - comidinha de verdade. Foi um sucesso que vocês não imaginam! Naquele tempo, nem nós aqui de casa éramos low carbers convictos. Assim, as receitinhas continham açúcar (pouco e mascavo) e farinha de trigo (integral, na maioria dos pratos). Por demandas da minha carreira principal de farmacêutica, tive de abandonar o projeto que, sinceramente, me fazia muito feliz. Mas algo em minha mente nunca se aquietou a esse respeito e Dona Osmarina voltou com tudo depois de nossa road trip às Minas Gerais, em março de 2019. Dona Osmarina voltou ainda mais saudável e com inspirações mineiras de deixar qualquer gaúcho com água na boca.