POR UMA VIDA SAUDÁVEL

Olá, eu sou a Renata. Nasci no dezembro escaldante de 1978 na cidade de Bagé, Rio Grande do Sul. Filha única de uma filha única (a filha da Dona Osmarina, por sinal), deixei a Rainha da Fronteira em 1996 para estudar em Pelotas, para onde retornei depois de década e meia morando na região noroeste do Estado. Escolhi, há cerca de 20 anos, ser da Área da Saúde porque talvez sempre estivesse em meu sangue cuidar das pessoas. Com apenas 20 anos de idade, me tornei Farmacêutica. Mais um ano de especialização, e eu era Bioquímica. Muitos anos de estudo depois e com uma boa vivência profissional (de laboratórios de Análises Clínicas a Hospitais, passando por Farmácia Magistral e Farmácia Clínica), percebi que minha profissão não tinha tanto assim de Saúde. E sim, sempre fui uma ótima farmacêutica e fiz o que pude para colaborar com o bem estar físico e mental de meus pacientes. Aqui, não estou desmerecendo a profissão nem meus colegas: não são estes que estão errados, é o mundo que está errado e somos impotentes perante tantos absurdos. Nos últimos 4 anos, em que estive imersa no contexto do varejo farmacêutico, percebi que estamos sufocados pela indústria da doença. Sejamos sinceros: medicamentos não curam ninguém. Prolongam a vida, são coadjuvantes, dão uma forcinha para que o próprio organismo se restabeleça. Ok, há exceções e de forma alguma estou insinuando que as pessoas devam suspender os antibióticos ou não se vacinar. Mas a verdade é que a cura sempre foi e sempre será feita por nós mesmos. Pelo que ingerimos, como sempre digo. Seja através de alimentos ou pensamentos. Tenho visto cenas tristes e até irritantes no meu dia a dia. Jovens obesos indo buscar seus hipoglicemiantes através da Farmácia Popular tendo em mãos pastel e refrigerante. A barganha pela cura, onde a pessoa paga o que for pedido por um maço de cigarros mas pechincha descontos em um medicamento que está lhe mantendo vivo. É triste e estou cansada. Decidi, inclusive, ser um pouco menos farmacêutica, como dizem. Dei uma guinada em minha carreira, deixando boquiabertos aqueles que me tinham como um ícone profissional, inclusive. Estou me dedicando ultimamente à área da gestão, que é apaixonante. Descobri que trabalhar com metas, desafios, soluções e pessoas é incrível. Uma equipe feliz e motivada faz jus àquela máxima de Richard Branson, "os clientes não vêm em primeiro lugar. Os funcionários vêm em primeiro lugar. Se você cuidar dos seus funcionários, eles cuidarão dos seus clientes." Pois bem. Mas onde eu estava? O que tudo isso tem a ver com comida, afinal? Desde criança sou apaixonada pela cozinha, como contei um pouquinho aqui. Lá em meados de 2005, decidi que queria fazer um Mestrado. Mas na época eu tinha três empregos (um deles com plantões, inclusive) e precisava encontrar algo que fosse razoavelmente perto, fosse pago para eu ter uma certa flexibilidade de horários e fosse, óbvio, interessante. A essa altura, eu já estudava por conta própria Nutrição Clínica e estava enjoada da minha área. Num sábado de manhã, vasculhando as opções na internet, descobri um Mestrado na URI Campus de Erechim, perfeito. O nome? Engenharia de Alimentos. A desgraça de quando uma pessoa é apaixonada por algo é que ela só entende o que ela quer. Ou seja, desprezei a palavra engenharia e meus quatro olhinhos brilharam para os alimentos. Me dei mal, né. Já na banca de seleção, um engenheiro metido a besta me perguntou "você sabe que isso aqui é engenharia e que não vai ser nada fácil para você? E que caso você venha a conseguir se formar, vai ser a primeira farmacêutica mestre em engenharia de alimentos? Tem certeza que isso é pra você?" Fiquei tão irritada com ele que respondi com aparente frieza e convicção um "óbvio que sei, por isso estou aqui." Claro, saí da sala ereta e pensando onde tinha atado meu burrinho. Resumo da ópera: das dezenas de disciplinas, apenas um B, o restante conceito A. Experimentos em parceria com a Embrapa de Concórdia, Santa Catarina. Uma defesa de dissertação de fazer os doutores engenheiros chorarem de emoção. Ligações de universidades de todo o canto do Brasil para saber detalhes da minha pesquisa. E, para finalizar, um rico de um artigo científico publicado em uma conceituada revista internacional. Aí você se pergunta: e esse mestrado, serviu para quê mesmo? Para nada, senhores. Achei bonito o nome e desafiadora a trajetória. Só fiz porque queria viver essa experiência e porque gosto de comida. As pessoas acham que esse meu título me dá força e embasamento nesses projetos, e eu concordo. Eu adoraria ser servida por uma Farmacêutica Bioquímica Mestre em Engenharia de Alimentos. A comida dela deve ser mesmo incrível! Comida faz as pessoas felizes. Comida cura. E por isso estou aqui, senhores. Porque sou e sempre serei da Área da Saúde.